1. Antes da formação literária do AT, a atribuição do título de pastor à divindade já era conhecida na cultura egípcia e na Mesopotâmia. É aí que Israel busca elementos para produzir sua teologia (O sol é meu pastor!).
2. O pastor no AT. Embora a aplicação desta terminologia a Javé seja muito antiga, a encontramos poucas vezes no AT. As atividades atribuídas a ação pastoral de Javé podemos agrupá-las em quatro grandes funções, expressas pelos verbos:
a) Guiar e conduzir: - não é paternalismo, nem autoritarismo, mas serviço indispensável. Sem pastor, o povo se dispersa, se dissolve. - o pastor é aquele que caminha à frente das ovelhas: plano político, ético e religioso (Gn 48,15 e 49,24ss; Sl 23; 28; 48; 77; 78; 80: Javé é meu pastor, guia-me para as águas tranqüilas, conduz-me por caminhos de justiça (23,23). - impede que o povo seja levado ao matadouro.
Os profetas colocam o tema do pastor no contexto do novo Êxodo (Os 4,16; Is 40,1; 49,10)
- Conduzir e guiar revelam a profunda experiência de Israel de ser guiado por Javé. O núcleo dessa experiência e o êxodo (Ex 15,13) - o populismo acha que o povo por si mesmo tem condições de sobreviver.
b) Providenciar alimento:
- apascentar significa procurar e prover alimento, água e encontrar caminhos seguros para a vida do rebanho: o Senhor é meu pastor, nada me falta (Sl 23). - no deserto, o maná e as codornizes (Ex 16,12ss); 23,5 O Senhor é quem “prepara a mesa” no deserto; somos rebanho do pasto de Javé: Sl 74,1; 79,13; 95,7; 110,3.
- Os profetas falam de Javé que provê: Is 14,30; 49,9-10; Ez 34,14ss; Sf 2,7. - Daí-lhes vós mesmos de comer Mc 6,37
c. Vigiar, defender, libertar do perigo:
- Javé não só reúne o seu rebanho, também procura (Ez 34,16). Acusa os falsos pastores de não procurarem a ovelha perdida (Ez 34,4). É um outro momento da caminhada do Povo de Deus, não se trata mais de libertá-lo da escravidão, mas sim reuni-lo, pois está disperso (Jr 31,8; Is 40,11 e Mq 2,12).
Deus-guarda: V3. ... o teu guarda jamais dormirá V4. ... não dorme nem cochila o guarda de Israel. V5. ... Javé é teu guarda, V7a. ... Javé te guarda de todo o mal, V7b. ... Ele guarda a tua vida, V8. ... Javé guarda a tua partida e chegada (Sl 121,3-8)
d) Fazer aliança: - Pastor Egípcio reúne, mas não via em busca (Aristocrata) - aspecto afetivo do pastor com seu rebanho; vive sua função, não como mercenário, mas como quem ama. - é o âmbito da pura gratuidade, da paciência incondicionada, da ternura e amizade (Sl 79,13; 95,7; 100,3). - é o núcleo do Sl 23: EU-TU (23,4). - quando conhecerão que sou Javé? - processo de conhecimento e amizade (Ez 34,27).
3. O pastor no NT. • No judaísmo tardio, a profissão de pastor não gozava de nenhum prestígio; • mercenários, bandidos, fraudulentos: sem direitos civis; • desta forma, como chamar a Deus de “meu pastor” ? • exceção em algumas passagens para Javé, Messias, Moisés ou Davi: esse contraste espelha a realidade da própria vida de Jesus, que veio chamar os pecadores, curar os doentes, conviver com os impuros “reunir as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24.10,6); • Jesus é o Bom Pastor: vai ao encontro das multidões cuja dispersão, fraqueza e abatimento o comovem profundamente (Mt 9,35-36 e Mc 6,34); a mesma expressão no AT: Nm 27,16-17; 1Rs 22,17; 2Cr 18,16; Jr 50,6; Zc 10,2; • ao encontrar a ovelha perdida carrega-a nos ombros e a traz de volta com ternura materna, não xingando, nem chicoteando, mas acariciando.
Leitura orante: Lc 15,4-7 e Jo 10,11-16, Mt 18,12-14 • A práxis do Bom Pastor: Jesus é o pastor messiânico prometido no AT; é o revelador da misericórdia de Deus, o mediador universal da salvação e o selo definitivo da aliança; é o Caminho, a Verdade e aVida (Jo 14,6): da sua práxis aprendemos as entranhas da misericórdia: (Mt 9,35-36 e Mc 6,34) = compaixão - da indignação ética à práxis da justiça e desta à paixão até às últimas consequências: “tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). A práxis do Bom Pastor é uma ação plena em prol do cumprimento da totalidade da justiça. Esta perspectiva nos remete a LC 4, 16-21: o discurso inaugural na sinagoga de Nazaré. • O Espírito que o consagrou é a caridade (amor pastoral):
a) caridade evangelizadora: anunciar aos pobres uma notícia; b) caridade social: proclamar aos prisioneiros a libertação; c) caridade existencial: recuperar a vista aos cegos; d) caridade política: restituir a liberdade aos oprimidos.
• a relação de Jesus com a multidões empobrecidas e esvaziadas de sua memória e utopias, testemunha a fome e sede de justiça que Ele mesmo experimenta na medida em que se aproxima, comove-se e se compadece (profunda relação entre a misericórdia e a fome e sede de justiça). • o amor pastoral é cheio de afeto e comunhão interpessoal ao mesmo tempo que pleno de compromisso público (social e político).
4. Entranhas de misericórdia: Deus também é mãe (cf. Is 49,15) • a bondade, a ternura, a paciência, a procura incansável dos pecadores, a sensibilidade para acompanhar os passos das ovelhas que amamentam, e para curar suas feridas ... Tudo isso integra a mística do presbítero-bom pastor. • uma rápida reflexão bíblica nos remete para alguns sentidos profundos que a misericórdia apresenta na Sagrada Escritura: • HESED: acentua as características da fidelidade para consigo mesmo e da responsabilidade pelo próprio amor (Ez 36,22) (fidelidade que brota do compromisso intrínseco de quem sente misericórdia); • rahamim: é o amor materno (hehem = seio materno). É uma variante feminina da fidelidade masculina expressa pelo hesed. Sobre este fundo psicológico, rahamim dá origem a uma gama de senimentos, entre os quais a bondade e a ternura, a paciência e a compreensão, que o mesmo é dizer a prontidão para perdoar. Tanto hesed quanto rahamim são terminologias referentes a misericórida que o AT atribui ao Senhor; • entranhas de misericórdia no sentido feminino do bom emprego de rahamim vemos em Is 49,15: “Pode porventura a mulher esquece-se do seu filho e não ter carinho para com o fruto das suas entranhas? Pois ainda que a mulher se esquecesse do próprio filho, eu jamais me esqueceria de ti”; • temos ainda na Bíblia, para expressar misericórdia de Javé, o seguintes termos: hãnam = manifestação da graça; • hãmal = manifestar piedade e compaixão; hùs = piedade e compaixão (mais no sentido afetivo); ‘emet = solidez e segurança e depois fidelidade; • como vivenciar essa dimensão da espiritualidade presbiteral no contexto de conflitos e tensões do mundo e da Igreja? • sem pretender equilíbrios impossíveis ... viver a tolerância: recomendação de Nosso Senhor na parábola da colheita do trigo e do joio (Mt 13,24-30) - Paciência histórica! • tolerância: virtude cristã das mais urgentes ... “Se a vossa tolerância não exceder à dos escribas e fariseus” (Mt 5, 20). Na realidade, trata-se de uma virtude para quem deseja viver democraticamente; em si, é uma virtude civil ... Mas como se faz necessária na Igreja hoje! • precisamos erradicar a cumplicidade entre “inquisidores” e “hereges”: faces do mesmo semblante rígido da intolerância! • libertarmo-nos da pretensão de apropriar-se da verdade e de impô-la, pois isso faz com que muitas vezes nossa reuniões pastorais, nossos encontros sejam momentos de amargura e angústia. Sofrer pelo povo do Senhor faz parte da opção pelo Reino (Bem-aventuranças), mas sofrer por lutar pelo poder nada tem de evangélico e nem de cristão. É preciso amar a comunidade (Jo 21,15); • não é possível que a autoridade na Igreja, exercida em nome do Bom Pastor, massacre pessoas e instituições e nem mesmo que em nome da evangélica opção pelos pobres (a expressão mais profunda e eclesial da compaixão e do amor profético do Bom Pastor pelas multidões sofredoras) se crie um maniqueísmo pastoral que antecipa a colheita escatológica, separando já os bons e maus, no binômio simplista ricos-pobres... • a vivência do amor pastoral como eixo da espiritualidade presbiteral supõe do pastor uma mística = uma espécie de síntese das coisas do coração e da razão em vista do agir que o envolve na sua plenitude.
Flauta mágica Podemos resumir em 3 práticas concretas que decorrem do amor pastoral “Empresta-me tua flauta mágica, andam todos agressivos. Dão a impressão de insones, 1ª. Misericórdia esgotados, 2ª. Relação pessoal nervos tensos. 3ª. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça! Não falam, agridem. Estão quase incapazes de julgar bem; de crer na palavra alheia, de amar. Lc 15,4-7 - pano de fundo - Ez 34,1-16 Seria bom demais, Senhor, Jo 10,1-8 ; 2 temas centrais porta VV 7-10 e pastor VV 11-18 serená-los, desarmá-los,fazê-los dormir”.
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